Comecei a tratar a ansiedade e ganhei peso. E agora?

O ganho de peso durante o tratamento da ansiedade pode estar relacionado à medicação, mas essa não é a única explicação possível. Recuperação do apetite, mudanças no sono, comer emocional, redução da atividade física e outros fatores também precisam ser avaliados.

A orientação não é interromper o medicamento por conta própria, mas revisar o tratamento com os profissionais responsáveis.

Essa é a resposta direta. Agora, vamos entender o que pode estar acontecendo.

Tratamento para ansiedade pode causar ganho de peso?

Alguns medicamentos utilizados no tratamento da ansiedade podem favorecer alterações no apetite e no peso. Entretanto, o efeito não é igual para todas as medicações nem para todas as pessoas.

Estudos comparativos mostram diferenças médias entre antidepressivos frequentemente prescritos. Essas médias ajudam na decisão clínica, mas não permitem prever exatamente o que acontecerá com cada paciente.

Além disso, o tratamento da ansiedade não se resume a medicamentos. Psicoterapia, atividade física, sono, manejo do estresse e intervenções sobre a rotina também podem fazer parte do cuidado, de acordo com o quadro e as necessidades individuais.

Nem todo ganho de peso vem diretamente do remédio

É comum atribuir qualquer mudança de peso à medicação assim que o tratamento começa. Mas a relação pode ser mais complexa.

Ao melhorar da ansiedade, algumas pessoas recuperam um apetite que estava reduzido. Outras passam a dormir melhor, retomam refeições que antes pulavam ou deixam de apresentar sintomas gastrointestinais associados ao sofrimento emocional.

Também podem ocorrer mudanças em sentido contrário: mais sonolência, menor disposição para se movimentar, aumento da fome, maior procura por alimentos palatáveis ou piora do comer emocional.

Por isso, é necessário avaliar o contexto inteiro — e não apenas a data em que o medicamento foi iniciado.

Como os medicamentos podem influenciar o peso?

Dependendo da substância e da resposta individual, podem ocorrer:

  • Aumento ou recuperação do apetite;

  • Mudanças na saciedade;

  • Mais vontade de comer;

  • Sonolência ou fadiga;

  • Redução do movimento cotidiano;

  • Alterações no padrão de sono;

  • Mudanças graduais no peso ao longo dos meses.

Esses efeitos não acontecem obrigatoriamente e podem variar conforme a dose, o tempo de uso, a combinação com outros medicamentos, as condições de saúde e as características individuais.

A própria ansiedade também pode interferir no peso

A ansiedade pode alterar a alimentação de maneiras diferentes.

Algumas pessoas perdem o apetite e emagrecem durante períodos de maior sofrimento. Outras passam a comer mais, principalmente alimentos associados a alívio rápido ou conforto emocional.

Também podem surgir:

  • Refeições irregulares;

  • Longos períodos sem comer seguidos de ingestão excessiva;

  • Uso da comida como tentativa de aliviar a tensão;

  • Episódios de compulsão alimentar;

  • Sono insuficiente;

  • Cansaço e redução da atividade física.

Quando a ansiedade melhora, o padrão alimentar pode mudar novamente. Isso ajuda a explicar por que nem toda alteração do peso é um efeito farmacológico isolado.

O que fazer se o peso começou a aumentar?

O primeiro passo é evitar duas respostas extremas: culpar-se ou interromper a medicação sozinho.

O tratamento deve ser reavaliado de forma estruturada.

1. Reconstruir a linha do tempo

É importante identificar:

  • Quando o peso começou a mudar;

  • Quanto foi ganho e em quanto tempo;

  • Quando a medicação foi iniciada ou teve a dose alterada;

  • Quais mudanças ocorreram no apetite, no sono e na rotina;

  • Se outros medicamentos foram acrescentados;

  • Como evoluíram os sintomas de ansiedade.

Uma associação temporal levanta uma hipótese, mas não prova sozinha que o medicamento foi a causa.

2. Avaliar fome, saciedade e comportamento alimentar

Não basta perguntar apenas: “Você está comendo mais?”

É necessário investigar se houve aumento da fome, redução da saciedade, mais vontade de alimentos específicos, episódios de perda de controle ou uso da comida para regular emoções.

Essas situações pedem estratégias diferentes.

3. Rever sono e nível de atividade física

Sonolência, fadiga e piora da disposição podem reduzir tanto o exercício planejado quanto o movimento espontâneo do dia a dia.

Por outro lado, controlar melhor a ansiedade pode facilitar o sono e permitir a retomada da atividade física. A resposta precisa ser observada individualmente.

4. Avaliar peso, composição corporal e saúde metabólica

O número da balança não deve ser analisado sozinho.

Circunferência abdominal, massa muscular, força, pressão arterial, glicemia, perfil lipídico e outros parâmetros podem ser relevantes conforme o caso.

Nem toda variação de curto prazo representa aumento de gordura corporal. Ainda assim, uma tendência persistente merece avaliação.

5. Discutir alternativas com o profissional responsável

Se houver suspeita de efeito adverso importante, o profissional que acompanha a saúde mental pode avaliar dose, tempo de tratamento, resposta clínica e possíveis alternativas.

A decisão deve considerar benefícios, riscos, histórico de tratamentos e possibilidade de sintomas de retirada ou recaída.

Não existe uma troca automaticamente melhor para todas as pessoas.

Por que não suspender o medicamento por conta própria?

A interrupção abrupta de antidepressivos pode provocar sintomas de retirada e aumentar o risco de retorno ou piora do quadro.

Dependendo da medicação, podem ocorrer:

  • Tontura;

  • Náusea;

  • Alterações do sono;

  • Irritabilidade;

  • Ansiedade;

  • Sensações físicas desconfortáveis;

  • Retorno dos sintomas que estavam controlados.

Quando a redução ou suspensão é indicada, geralmente precisa ser planejada e acompanhada.

O medo de ganhar peso é legítimo e deve ser levado a sério. Mas isso não significa escolher entre saúde mental e saúde metabólica.

É possível tratar ansiedade e obesidade ao mesmo tempo?

Sim. Os dois tratamentos podem e, muitas vezes, devem caminhar juntos.

Uma abordagem integrada pode incluir:

  • Acompanhamento da evolução da ansiedade;

  • Psicoterapia quando indicada e disponível;

  • Revisão dos medicamentos e de seus efeitos;

  • Organização possível da alimentação;

  • Manejo do comer emocional ou da compulsão;

  • Atividade física adaptada à condição atual;

  • Cuidados com o sono;

  • Redução do tempo sedentário;

  • Monitoramento do peso e da composição corporal;

  • Avaliação do perfil metabólico;

  • Tratamento específico da obesidade quando indicado.

O objetivo não é retirar uma medicação eficaz apenas por causa da balança. Também não é ignorar um ganho de peso relevante.

É construir uma decisão clínica compartilhada.

Saúde mental não precisa ser tratada às custas da saúde metabólica

Quando há ganho de peso durante o tratamento da ansiedade, a resposta adequada não é simplificar o problema.

Pode haver participação da medicação, recuperação do apetite, mudanças no sono, menor movimento, comer emocional ou uma combinação desses fatores.

O tratamento pode ser reavaliado e individualizado em conjunto com os profissionais responsáveis.

Cuidar da ansiedade e cuidar do peso não são objetivos concorrentes.

Perguntas frequentes

Todo antidepressivo causa ganho de peso?

Não. O efeito varia entre medicamentos e entre pessoas. Algumas não apresentam mudança relevante, enquanto outras percebem alterações no apetite ou no peso.

O ganho de peso aparece logo no início?

Pode surgir em momentos diferentes. Por isso, é importante analisar dose, tempo de uso, evolução dos sintomas e outras mudanças ocorridas na mesma fase.

Posso trocar o medicamento por outro que não engorde?

A troca só deve ser discutida com o profissional responsável. O efeito sobre o peso é apenas um dos critérios. Eficácia, riscos, contraindicações, histórico e sintomas também precisam ser considerados.

Devo parar o remédio se comecei a ganhar peso?

Não por conta própria. A suspensão abrupta pode causar sintomas de retirada e piora do quadro. Procure uma reavaliação.

O ganho de peso pode acontecer porque a ansiedade melhorou?

Sim. Algumas pessoas recuperam o apetite após a melhora da ansiedade. Isso não significa que o ganho de peso deva ser ignorado, mas ajuda a mostrar que a medicação pode não ser a única explicação.

Quando devo procurar avaliação médica?

Quando o ganho é persistente, rápido, causa sofrimento, vem acompanhado de compulsão, sonolência importante ou alterações metabólicas, ou quando você pensa em modificar a medicação.

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Dra. Camila Ayer
Médica de Família e Comunidade
CRM-SP 130787 | RQE 153900

REFERÊNCIAS

Petimar J, et al. Medication-Induced Weight Change Across Common Antidepressant Treatments: A Target Trial Emulation Study. Annals of Internal Medicine. 2024.
https://www.acpjournals.org/doi/10.7326/M23-2742

National Institute for Health and Care Excellence. Generalised anxiety disorder and panic disorder in adults: management.
https://www.nice.org.uk/guidance/cg113

Royal College of Psychiatrists. Stopping antidepressants.
https://www.rcpsych.ac.uk/mental-health/treatments-and-wellbeing/stopping-antidepressants

MedlinePlus. Antidepressants.
https://medlineplus.gov/antidepressants.html