Obesidade em crianças e adolescentes: tratar sem culpa também é parte do cuidado
Quando uma criança ou adolescente vive com obesidade, é comum que a conversa rapidamente se transforme em julgamento.
“Os pais deixam comer demais.”
“Falta limite.”
“Essa criança precisa fazer exercício.”
“A mãe deveria controlar melhor a alimentação.”
Esse tipo de abordagem parte de uma ideia equivocada: a de que a obesidade pediátrica seria simplesmente consequência das escolhas da criança ou da maneira como seus pais a educaram.
Não é.
O Posicionamento Brasileiro sobre Avaliação e Tratamento da Obesidade Pediátrica de 2026, da ABESO e da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), aborda a obesidade pediátrica como uma doença crônica, multifatorial e recorrente, influenciada pela interação entre fatores biológicos, genéticos, ambientais, sociais e comportamentais.
Isso muda uma pergunta fundamental.
Em vez de:
“Quem deixou essa criança engordar?”
precisamos perguntar:
“Do que essa criança ou adolescente precisa para ter mais saúde?”
A obesidade infantil é culpa dos pais?
Não. A obesidade pediátrica não pode ser explicada simplesmente como consequência de falha dos pais ou falta de disciplina da criança.
A família exerce influência sobre alimentação, rotina, sono, atividade física e ambiente doméstico, portanto sua participação no tratamento é muito importante.
Mas influência é diferente de culpa.
A predisposição genética, os mecanismos biológicos envolvidos na regulação do peso, o ambiente alimentar, as condições socioeconômicas, o sono, a atividade física, fatores psicológicos e diversos outros determinantes podem participar do desenvolvimento e da manutenção da obesidade.
Reduzir tudo isso a “os pais deixaram engordar” não apenas é cientificamente inadequado como pode aumentar o estigma.
A família deve ser parceira do tratamento, não ré da doença.
Por que o estigma relacionado ao peso também precisa ser combatido?
Porque comentários depreciativos, constrangimento e culpabilização não constituem tratamento.
Crianças e adolescentes com obesidade podem sofrer estigma relacionado ao peso dentro e fora de casa, inclusive em ambientes de saúde.
Isso pode afetar autoestima, saúde mental, relação com alimentação, prática de atividade física e até a disposição para procurar atendimento médico.
O consultório não deveria reproduzir esse julgamento.
Uma abordagem adequada precisa utilizar linguagem respeitosa, ouvir a criança ou adolescente e seus responsáveis e construir estratégias possíveis para aquela família.
Tratar obesidade não exige humilhar alguém para que essa pessoa “entenda a gravidade”.
Obesidade em crianças e adolescentes precisa ser tratada?
Sim. Obesidade pediátrica é uma condição de saúde que merece avaliação e tratamento adequados.
A ausência de culpabilização não significa minimizar a doença.
Esse é um ponto particularmente importante.
É possível dizer simultaneamente:
“Você não é culpado por ter obesidade”
e
“Essa condição merece cuidado.”
A obesidade durante a infância e a adolescência pode estar associada a alterações metabólicas e outras condições de saúde, além de poder persistir na vida adulta.
Por isso, reconhecer precocemente o problema permite avaliar riscos e definir a intensidade de tratamento necessária.
Como é feito o tratamento da obesidade pediátrica?
Não existe uma única intervenção adequada para todas as crianças e adolescentes.
A avaliação pode incluir crescimento e desenvolvimento, trajetória do peso e do IMC, estágio puberal, alimentação, atividade física, comportamento sedentário, sono, saúde mental, contexto familiar e social, além da investigação de condições clínicas e metabólicas associadas.
O tratamento também não deveria ser resumido a entregar uma dieta e mandar a criança “comer menos e se mexer mais”.
As intervenções precisam ser adequadas à idade, ao desenvolvimento e à realidade daquela família.
E, em determinados casos, o tratamento pode incluir farmacoterapia.
Crianças e adolescentes podem usar medicamentos para obesidade?
Sim. Em situações específicas, medicamentos antiobesidade podem fazer parte do tratamento de adolescentes.
Isso não significa que toda criança ou adolescente com excesso de peso tenha indicação de medicamento.
Também não significa utilizar em adolescentes qualquer “caneta” disponível para tratamento de adultos.
A indicação depende da idade, do diagnóstico, da gravidade da obesidade, das condições clínicas associadas e da avaliação individual.
A farmacoterapia deve fazer parte de uma estratégia abrangente de cuidado, e não substituir alimentação adequada, atividade física, sono, saúde mental, participação familiar e acompanhamento clínico.
Quais medicamentos estão aprovados para obesidade em adolescentes no Brasil?
Entre as opções atualmente aprovadas pela Anvisa para tratamento da obesidade em adolescentes a partir dos 12 anos, respeitados os critérios específicos de indicação de cada medicamento, estão:
Liraglutida (Saxenda) — agonista do receptor de GLP-1 de administração diária.
Semaglutida (Wegovy) — agonista do receptor de GLP-1 de administração semanal.
É importante fazer essa distinção porque aprovação para adultos não significa automaticamente aprovação para tratamento da obesidade em crianças ou adolescentes.
Da mesma forma, ter idade compatível com a bula não significa que determinado adolescente necessariamente precise de farmacoterapia.
A decisão é clínica e individualizada.
Usar medicamento significa que a família “falhou”?
Não.
Essa talvez seja uma das ideias mais importantes quando falamos sobre farmacoterapia na obesidade pediátrica.
Se existe indicação para medicamento, isso não significa que os pais não tentaram o suficiente, que a criança “não teve força de vontade” ou que alimentação e atividade física foram abandonadas.
Medicamento é uma das ferramentas disponíveis para tratar uma doença.
Da mesma maneira, quando uma criança precisa de tratamento farmacológico para asma, epilepsia ou diabetes, não interpretamos automaticamente a prescrição como uma falha moral da família.
A obesidade também não deveria receber esse tratamento moralizante.
Então basta prescrever uma caneta?
Também não.
Combater o preconceito contra medicamentos não significa banalizar sua utilização.
Antes de iniciar farmacoterapia, é necessário avaliar indicação, contraindicações, potenciais efeitos adversos, expectativas, contexto familiar e capacidade de acompanhamento.
Durante o tratamento, é necessário acompanhar resposta clínica, crescimento e desenvolvimento e outros parâmetros relevantes para aquele adolescente.
O objetivo não deveria ser simplesmente produzir a maior perda de peso possível.
O objetivo é melhorar saúde.
O que significa “inércia terapêutica” na obesidade pediátrica?
Existe outro extremo que também merece atenção: reconhecer que a criança tem obesidade, mas adiar indefinidamente uma abordagem estruturada esperando que “cresça e emagreça”.
Nem toda criança com excesso de peso precisa de medicamento — longe disso.
Mas não tratar também é uma decisão clínica.
Quando existe indicação de intensificar o cuidado, postergar repetidamente intervenções efetivas pode permitir a progressão da doença e de suas complicações.
Evitar inércia terapêutica não significa medicar precocemente todo mundo.
Significa oferecer a intensidade de tratamento adequada à necessidade daquela criança ou adolescente.
Qual é o papel dos pais no tratamento?
Um papel fundamental.
Mas há uma diferença enorme entre dizer:
“Vocês causaram isso.”
e dizer:
“Nós precisamos de vocês para ajudar no tratamento.”
Mudanças no ambiente doméstico tendem a ser mais adequadas quando envolvem a família e não transformam a criança com obesidade na única pessoa submetida a regras especiais.
Sono, alimentação, movimento, rotina e relação com o corpo podem ser trabalhados como aspectos da saúde familiar, evitando transformar o peso da criança no centro de todas as conversas.
Pais e cuidadores também precisam ser ouvidos.
Eles podem ter dificuldades financeiras, jornadas extensas de trabalho, pouco tempo para preparar refeições, problemas de acesso a espaços seguros para atividade física e inúmeras outras limitações reais.
Cuidado individualizado precisa compreender esse contexto antes de prescrever soluções.
O que mudou na forma de enxergar a obesidade pediátrica?
Talvez uma das mudanças mais importantes seja abandonar dois extremos.
De um lado:
“É culpa da família. Basta comer menos e fazer exercício.”
Do outro:
“Não podemos falar sobre obesidade porque isso pode gerar estigma.”
Existe um caminho melhor.
Reconhecer a obesidade como doença, avaliar suas repercussões, oferecer tratamento baseado em evidências e, ao mesmo tempo, proteger a criança e sua família de julgamento e estigma.
Podemos tratar sem culpar.
Podemos falar sobre peso sem reduzir uma pessoa ao peso.
Podemos utilizar medicamentos quando indicados sem transformar a farmacoterapia em solução para todos.
E podemos envolver a família sem responsabilizá-la moralmente pela doença.
A família precisa ser parceira do tratamento, não ré da doença.
Tratamento da obesidade com olhar integral
Como Médica de Família e Comunidade, acredito que o cuidado começa entendendo a pessoa dentro de seu contexto — e isso se torna ainda mais importante quando falamos de crianças, adolescentes e suas famílias.
Obesidade é uma doença crônica e multifatorial. O tratamento precisa considerar não apenas o peso, mas também saúde metabólica, alimentação, movimento, sono, saúde mental, desenvolvimento e realidade familiar.
Sem culpa. Sem estigma. E sem inércia terapêutica.
Dra. Camila Ayer
Médica de Família e Comunidade
CRM-SP 130787 | RQE 153900