Como o tratamento da obesidade mudou dos anos 80 até hoje?
Se eu fosse médica nos anos 80, provavelmente trataria a obesidade de uma maneira bastante diferente da que trato hoje.
Talvez prescrevesse uma dieta muito hipocalórica. Poderia utilizar medicamentos para reduzir o apetite, como femproporex, anfepramona ou mazindol. E provavelmente recomendaria atividade física principalmente para aumentar o gasto calórico.
Algumas dessas condutas podem parecer estranhas quando vistas em 2026.
Mas existe uma questão importante por trás dessa comparação: a medicina muda conforme o conhecimento científico evolui.
E a história do tratamento da obesidade é um excelente exemplo disso.
Como a obesidade era tratada nos anos 80?
Na década de 1980, a compreensão dos mecanismos que regulam o peso corporal era muito mais limitada do que hoje.
A abordagem frequentemente se concentrava em uma equação aparentemente simples:
comer menos + gastar mais = perder peso.
Por isso, redução importante da ingestão calórica, medicamentos para diminuir o apetite e aumento da atividade física ocupavam papel relevante nas estratégias de emagrecimento.
Isso não significa simplesmente que os médicos daquela época faziam “medicina ruim”.
Eles trabalhavam com o conhecimento, os medicamentos e as evidências disponíveis naquele momento histórico.
1. Dietas muito hipocalóricas eram utilizadas para emagrecer
A restrição energética ocupava posição central no tratamento.
Dietas bastante hipocalóricas — incluindo estratégias na faixa de 800 a 1.200 kcal por dia em determinados contextos — eram utilizadas para produzir perda de peso.
A lógica parecia bastante intuitiva:
menos calorias → perda de peso.
A redução da ingestão energética continua sendo um dos mecanismos envolvidos na perda de peso. O que mudou foi nossa compreensão sobre o que acontece depois.
Hoje conhecemos melhor as adaptações biológicas desencadeadas pela perda de peso, incluindo alterações que podem favorecer aumento da fome e redução do gasto energético.
Por isso, perder peso e manter o peso perdido não são exatamente o mesmo problema.
2. Femproporex, anfepramona e mazindol fizeram parte dessa história
Os chamados anorexígenos ou medicamentos para “tirar a fome” tiveram grande espaço no tratamento farmacológico da obesidade.
Entre os medicamentos utilizados no Brasil ao longo desse período e das décadas seguintes estavam:
- femproporex;
- anfepramona (dietilpropiona);
- mazindol.
O objetivo era principalmente reduzir o apetite e, consequentemente, a ingestão alimentar.
Com o passar dos anos, porém, aumentou o conhecimento sobre eficácia, efeitos adversos, segurança cardiovascular e potencial de abuso ou dependência de determinados fármacos.
A farmacoterapia da obesidade também passou por profundas transformações.
Hoje existem medicamentos desenvolvidos e estudados dentro de uma compreensão muito mais sofisticada da regulação biológica da fome, saciedade e peso corporal.
3. Exercício era muito associado a “queimar calorias”
Outra ideia extremamente difundida era usar o exercício principalmente como uma maneira de aumentar o gasto energético.
A conta parecia simples:
comer menos + gastar mais = emagrecer.
Hoje sabemos que a importância da atividade física vai muito além das calorias gastas durante o treino.
Ela pode contribuir para saúde cardiovascular, capacidade funcional, força, preservação de massa muscular, saúde mental e manutenção do peso perdido.
Isso também muda a conversa dentro do consultório.
O exercício deixa de ser simplesmente uma ferramenta para “compensar o que comeu” e passa a fazer parte do cuidado global da saúde.
O que a ciência descobriu sobre obesidade desde então?
Nas últimas décadas, nossa compreensão da obesidade mudou profundamente.
Hoje sabemos que o peso corporal é influenciado por uma interação complexa entre biologia, genética, ambiente, alimentação, atividade física, sono, medicamentos, condições clínicas e fatores sociais.
Também compreendemos melhor que o organismo possui mecanismos de regulação energética capazes de reagir à perda de peso.
Isso ajuda a explicar uma situação que muitas pessoas conhecem muito bem:
emagrecer pode ser difícil — mas manter o peso perdido pode ser ainda mais desafiador.
Essa mudança de conhecimento também contribuiu para que a obesidade deixasse de ser compreendida simplesmente como consequência de “falta de força de vontade”.
Como é o tratamento da obesidade atualmente?
Não existe uma única estratégia adequada para todas as pessoas.
O tratamento pode envolver intervenções alimentares, atividade física, sono e recuperação, avaliação clínica e metabólica e, quando houver indicação, tratamento farmacológico.
Na minha prática, organizo essa avaliação através do Método 5P:
Prato: alimentação possível e sustentável.
Passos: movimento e atividade física adequados à realidade daquela pessoa.
Pausa: sono, estresse e recuperação.
Perfil Metabólico: história clínica, condições associadas, medicamentos em uso, riscos e exames quando indicados.
Prescrição: medicamentos quando houver indicação clínica.
O objetivo não é substituir estilo de vida por medicamento — nem medicamento por estilo de vida.
É entender quais ferramentas aquela pessoa precisa naquele momento do tratamento.
A medicina de hoje também vai mudar
Talvez essa seja a parte mais interessante dessa história.
É fácil olhar para uma conduta de 40 anos atrás com o conhecimento que temos hoje e pensar:
“Como faziam isso?”
Mas é bastante provável que médicos de 2066 façam exatamente a mesma pergunta sobre algumas das nossas práticas atuais.
Isso não diminui a ciência.
É exatamente assim que a ciência funciona: novas evidências aparecem, hipóteses são testadas, recomendações são revistas e a prática médica muda.
Medicina baseada em evidências não significa acreditar que o conhecimento atual será definitivo.
Significa oferecer o melhor cuidado possível com as evidências disponíveis hoje — e estar disposto a mudar quando surgirem evidências melhores.
Perguntas frequentes
Femproporex era usado para emagrecer?
Sim. O femproporex é um anorexígeno que fez parte da história do tratamento farmacológico da obesidade no Brasil. A avaliação contemporânea desses medicamentos considera aspectos de eficácia e segurança que foram sendo mais bem compreendidos ao longo do tempo.
Anfepramona é a mesma coisa que dietilpropiona?
Sim. Anfepramona é o nome utilizado no Brasil para a substância também conhecida como dietilpropiona.
Dietas de 800 calorias eram usadas para emagrecer?
Estratégias de muito baixa ingestão energética foram utilizadas no tratamento da obesidade em contextos específicos. Isso não significa que uma dieta de 800 kcal seja apropriada para uma pessoa simplesmente tentar por conta própria. Dietas de muito baixo valor energético exigem indicação e acompanhamento adequados.
Hoje a obesidade é tratada apenas com medicamentos?
Não. O tratamento contemporâneo da obesidade é individualizado e pode combinar alimentação, atividade física, sono, manejo de fatores associados, acompanhamento longitudinal e farmacoterapia quando indicada.
Qual médico trata obesidade?
A obesidade pode ser acompanhada por médicos capacitados para sua avaliação e tratamento. A Medicina de Família e Comunidade tem como características o cuidado integral e longitudinal, permitindo avaliar não apenas o peso, mas também outras condições de saúde, medicamentos, rotina, contexto e objetivos da pessoa.
Tratamento da obesidade em Campinas, São Paulo e por telemedicina
Sou Dra. Camila Ayer, Médica de Família e Comunidade, e trabalho com acompanhamento médico de pessoas com obesidade e sobrepeso.
O tratamento é individualizado e organizado pelo Método 5P, sem dieta pronta ou protocolo igual para todo mundo.
Atendimento em Campinas e São Paulo, além de consulta on-line para todo o Brasil.
Dra. Camila Ayer
Médica de Família e Comunidade
CRM-SP 130787 | RQE 153900
Agendamentos pelo link disponível no site.
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