Obesidade mesmo fazendo exercício: por que “comer menos e se mexer mais” não explica tudo?
Eu convivo com a obesidade desde a infância.
Ao longo da vida, já passei por diferentes dietas e tratamentos medicamentosos. Já perdi peso, tive reganho e precisei recomeçar.
E existe um detalhe da minha história que costuma surpreender algumas pessoas: eu adoro esporte.
Nado, pedalo, corro e faço treinamento de força. A atividade física faz parte da minha rotina há anos.
E, ainda assim, convivo com obesidade.
Essa experiência pessoal também ajuda a ilustrar algo que vemos na medicina: obesidade é muito mais complexa do que simplesmente comer demais e fazer pouco exercício.
É possível fazer muito exercício e ainda ter obesidade?
Sim.
A atividade física é extremamente importante para a saúde e faz parte do tratamento da obesidade. Ela contribui para aptidão cardiorrespiratória, capacidade funcional, preservação de massa muscular, saúde cardiometabólica e qualidade de vida.
Mas praticar exercício regularmente não torna uma pessoa imune à obesidade.
O peso corporal resulta da interação entre diversos mecanismos: predisposição genética, ambiente, regulação cerebral da fome e da saciedade, gasto energético, sono, medicamentos, condições clínicas, fatores psicológicos e sociais, entre outros.
Por isso, olhar para uma pessoa com obesidade e concluir que ela simplesmente “precisa se mexer mais” pode ser não apenas injusto, mas biologicamente simplista.
Então exercício não ajuda a emagrecer?
Ajuda. O erro está no extremo oposto.
Atividade física aumenta o gasto energético e pode contribuir para perda e manutenção do peso. Mas a resposta individual ao exercício varia e não depende apenas das calorias gastas durante um treino.
Além disso, o valor do exercício não pode ser medido apenas pelo número que aparece na balança.
Uma pessoa pode apresentar mudanças relativamente pequenas no peso e, ao mesmo tempo, melhorar condicionamento, força, mobilidade, parâmetros metabólicos e capacidade de realizar as atividades do cotidiano.
No tratamento da obesidade, essas mudanças também são resultado.
Por que é tão comum emagrecer e depois recuperar peso?
Essa talvez seja uma das partes mais frustrantes para quem vive com obesidade.
E eu conheço essa história também.
O reganho de peso frequentemente é interpretado como falta de disciplina: a pessoa teria “relaxado”, “voltado a comer” ou abandonado o tratamento.
Só que existe fisiologia por trás disso.
Após a perda de peso, o organismo pode responder com adaptações que favorecem a recuperação do peso perdido, incluindo alterações na fome, na saciedade e no gasto energético.
Isso ajuda a entender por que perder peso e manter o peso perdido são desafios diferentes.
Também explica por que tratar obesidade como um projeto de poucas semanas costuma funcionar mal.
Obesidade é uma doença crônica
Esse conceito muda bastante a conversa.
Se estamos diante de uma doença crônica, episódios de reganho não deveriam automaticamente ser interpretados como fracasso pessoal.
O tratamento pode precisar ser revisto ao longo do tempo.
Estratégias alimentares podem mudar. A atividade física pode precisar ser adaptada. Medicamentos podem ser introduzidos, substituídos ou suspensos conforme indicação clínica.
O acompanhamento também precisa considerar o que está acontecendo na vida daquela pessoa.
É muito diferente dessa lógica:
“Faça dieta até emagrecer e depois é só manter.”
Onde entram os medicamentos para obesidade?
Para algumas pessoas, a farmacoterapia pode fazer parte do tratamento.
Hoje temos medicamentos que atuam em mecanismos biológicos envolvidos na regulação do apetite, da saciedade e do peso corporal.
Entre eles estão medicamentos como semaglutida e tirzepatida.
Isso não significa que toda pessoa com obesidade precise usar medicação, nem que exista um medicamento ideal para todo mundo.
A escolha depende da avaliação clínica, das condições associadas à obesidade, dos tratamentos anteriores, das contraindicações, da tolerabilidade e dos objetivos de cada pessoa.
Minha experiência com tirzepatida
Recentemente iniciei uma nova etapa do meu próprio tratamento utilizando tirzepatida, comercializada como Mounjaro.
Ainda estou nas primeiras semanas, portanto seria inadequado tirar grandes conclusões.
Mas algumas percepções me chamaram atenção.
A principal delas foi uma redução importante dos pensamentos recorrentes sobre comida — fenômeno que costuma ser chamado informalmente de food noise.
Também apresentei um pouco de náusea nos primeiros dias após as aplicações e percebi o intestino mais solto. Até o momento, esses sintomas não interferiram na minha rotina.
Outra observação pessoal foi relacionada ao esporte. Durante uma experiência anterior com semaglutida, percebi redução importante da vontade de treinar. Com a tirzepatida, até agora, não percebi a mesma coisa.
Aqui é importante separar experiência de evidência:
eu ter percebido algo durante o uso de um medicamento não significa que o medicamento tenha necessariamente causado aquilo.
A relação entre essas terapias, sistemas cerebrais de recompensa e diferentes aspectos da motivação ainda é uma área que merece investigação.
E o peso?
Sim, meu peso já começou a diminuir.
Também continuo me sentindo bem nos treinos e mantendo minha rotina esportiva.
Mas não considero que o número da balança seja suficiente para avaliar um tratamento de obesidade.
Eu quero perder excesso de gordura, mas também quero preservar massa muscular, continuar treinando, ter saúde e conseguir sustentar o tratamento ao longo do tempo.
O peso é parte do tratamento. Não é o tratamento inteiro.
Minha experiência não é uma prescrição
Esse talvez seja o ponto mais importante deste artigo.
Estou contando minha experiência porque também vivo algumas das dificuldades que encontro diariamente no consultório.
Mas meu tratamento não serve como modelo para outra pessoa.
O fato de eu ter respondido de determinada maneira à tirzepatida não significa que outra pessoa terá a mesma resposta. Da mesma forma, minha experiência anterior com semaglutida não permite comparar cientificamente os dois medicamentos.
Obesidade exige avaliação individual.
E talvez seja justamente por isso que a frase “é só comer menos e se mexer mais” tenha envelhecido tão mal.
O corpo humano é mais complexo do que isso.
Tratamento da obesidade em Campinas e on-line
Sou Dra. Camila Ayer, Médica de Família e Comunidade, e trabalho com acompanhamento de pessoas que vivem com obesidade e sobrepeso.
O tratamento considera não apenas o peso, mas também alimentação, atividade física, sono, relação com a comida, condições clínicas e, quando existe indicação, tratamento medicamentoso.
Atendimento presencial em Campinas e São Paulo e on-line para todo o Brasil.
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Informações e agendamento pelo site.