Quando falamos em tratamento da obesidade, ainda é comum organizar as opções como se fossem etapas de uma escada:

Primeiro, alimentação e exercício.
Depois, medicamento.
E, se “nada funcionar”, cirurgia bariátrica.

Essa lógica parece simples, mas não representa bem o que sabemos hoje sobre obesidade.

Medicamentos e cirurgia metabólica/bariátrica não são tratamentos concorrentes. São ferramentas diferentes para tratar uma doença crônica, complexa e multifatorial.

A escolha depende da pessoa, da gravidade da doença, das complicações associadas, dos tratamentos anteriores, dos riscos, das preferências e dos objetivos do tratamento.

Obesidade não deveria ser tratada pela lógica do fracasso

Ainda ouvimos frases como:

“Não conseguiu só com dieta, então precisou da caneta.”

“Precisou operar porque não conseguiu emagrecer.”

“Fez bariátrica e voltou a usar medicamento, então a cirurgia falhou.”

Perceba que todas elas partem da mesma ideia: se um tratamento mais intensivo foi necessário, alguém fracassou antes.

Não pensamos assim em outras doenças crônicas.

Uma pessoa com hipertensão que precisa associar um segundo medicamento não “fracassou”.

Uma pessoa com diabetes que precisa modificar seu tratamento ao longo dos anos também não.

Nós reconhecemos que a doença e as necessidades daquela pessoa podem mudar.

Na obesidade, deveria acontecer o mesmo.

Onde entram os medicamentos?

A farmacoterapia da obesidade avançou muito nos últimos anos.

Medicamentos como semaglutida e tirzepatida atuam em mecanismos envolvidos na regulação da fome, saciedade e ingestão alimentar e podem produzir perdas de peso clinicamente relevantes quando adequadamente indicados.

Nos estudos STEP 1 e SURMOUNT-1, por exemplo, semaglutida e tirzepatida demonstraram perdas médias de peso substanciais em adultos com sobrepeso ou obesidade.

Isso não significa que sejam indicados para todas as pessoas nem que devam funcionar isoladamente.

A OMS reforça que as terapias baseadas em GLP-1 devem estar inseridas em uma abordagem abrangente e de longo prazo para a obesidade.

Medicação é tratamento. Não é atalho.

E a cirurgia metabólica/bariátrica?

A cirurgia metabólica e bariátrica continua sendo uma das intervenções mais efetivas disponíveis para pacientes adequadamente selecionados.

As recomendações internacionais da ASMBS/IFSO de 2022 indicam cirurgia para pessoas com IMC ≥35 kg/m² independentemente da presença ou gravidade de comorbidades e recomendam considerá-la também em determinadas pessoas com IMC entre 30 e 34,9 kg/m², especialmente diante de doença metabólica ou quando métodos não cirúrgicos não produzem resultados substanciais e duradouros.

Portanto, chamar cirurgia bariátrica de “último recurso” é uma simplificação.

Existe indicação clínica para cirurgia, assim como existe indicação clínica para medicamentos.

“Mas agora temos medicamentos muito eficazes. Ainda faz sentido operar?”

Sim, para pacientes adequadamente selecionados.

Os medicamentos modernos mudaram profundamente o cenário terapêutico, mas isso não tornou a cirurgia obsoleta.

As duas estratégias apresentam diferenças em magnitude e durabilidade da perda de peso, efeitos metabólicos, riscos, eventos adversos, contraindicações, custos e necessidade de acompanhamento.

E existe outro ponto fundamental: médias de estudos não escolhem tratamentos para indivíduos.

A decisão precisa considerar o paciente que está sentado à nossa frente.

E se a pessoa precisar de medicamento depois da bariátrica?

Também pode acontecer.

Algumas pessoas apresentam perda de peso insuficiente ou recuperação de parte do peso após cirurgia.

Isso não significa automaticamente que a cirurgia “deu errado”.

Obesidade continua sendo uma doença crônica depois da operação.

Dependendo da situação clínica, medicamentos antiobesidade podem ser utilizados como parte do manejo após cirurgia metabólica/bariátrica.

O tratamento não precisa pertencer ao “time da cirurgia” ou ao “time da caneta”.

As ferramentas podem se complementar ao longo da trajetória do paciente.

Tratar obesidade é muito mais do que escolher entre caneta e cirurgia

Essa talvez seja a parte mais importante.

Nenhuma dessas estratégias elimina a necessidade de olhar para a pessoa inteira.

É preciso considerar alimentação, atividade física, sono, saúde metabólica, composição corporal, comportamento alimentar, saúde emocional, comorbidades, efeitos adversos e contexto de vida.

É essa lógica que organizo no Método 5P:

Prato — alimentação e adequação nutricional.
Passos — movimento e atividade física.
Pausa — sono, descanso e recuperação.
Perfil Metabólico — avaliação clínica e metabólica individual.
Prescrição — intervenções terapêuticas quando indicadas.

E, quando cirurgia entra nessa trajetória, o acompanhamento não termina na sala cirúrgica.

Obesidade continua exigindo cuidado longitudinal.

Então, qual é o melhor tratamento?

Não existe uma resposta única.

Para uma pessoa, pode ser predominantemente uma intervenção comportamental.

Para outra, farmacoterapia.

Para outra, cirurgia metabólica/bariátrica.

E algumas pessoas podem utilizar diferentes estratégias ao longo da vida.

Por isso, em vez de perguntar:

“Caneta ou bariátrica: qual é melhor?”

prefiro perguntar:

“Para esta pessoa, neste momento, qual estratégia oferece a melhor relação entre benefício, risco, saúde, qualidade de vida e possibilidade de manutenção no longo prazo?”

Isso muda completamente a conversa.

Usar medicamento não é falta de força de vontade.

Fazer cirurgia não é pegar um atalho.

E precisar de outro tratamento posteriormente não transforma automaticamente o anterior em fracasso.

Obesidade é uma doença crônica. O tratamento também precisa ser pensado no longo prazo.

Ciência sem terrorismo. Sem milagres. Sem culpa.

Dra. Camila Ayer
CRM-SP 130787
Método 5P

Referências

Eisenberg D, et al. 2022 ASMBS and IFSO: Indications for Metabolic and Bariatric Surgery. Surg Obes Relat Dis. 2022;18(12):1345–1356.

Wilding JPH, et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity. N Engl J Med. 2021;384:989–1002.

Jastreboff AM, et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity. N Engl J Med. 2022;387:205–216.

Rubino F, et al. Joint international consensus statement for ending stigma of obesity. Nat Med. 2020;26:485–497.

Mechanick JI, et al. Clinical Practice Guidelines for the Perioperative Nutrition, Metabolic, and Nonsurgical Support of Patients Undergoing Bariatric Procedures. Endocr Pract. 2019;25(Suppl 2):1–75.

World Health Organization. Guideline on the use of GLP-1 therapies in the treatment of obesity in adults. 2025.