Cigarros para controlar o peso. Hormônios da tireoide. Anfetaminas.

Parece uma lista estranha quando olhamos com os conhecimentos que temos hoje, mas diferentes estratégias desse tipo fizeram parte da história da busca pelo emagrecimento.

E essa história ajuda a entender uma mudança muito maior: não foram apenas os medicamentos que evoluíram. A própria forma como a medicina entende a obesidade mudou.

Quando fumar chegou a ser associado ao controle do peso

No início do século XX, a indústria do tabaco explorou diretamente a relação entre cigarro, apetite e peso corporal em suas campanhas publicitárias.

Um dos exemplos históricos mais conhecidos foi a publicidade que sugeria escolher um cigarro em vez de um doce.

Hoje sabemos que o tabagismo é responsável por enorme carga de doença e mortalidade. Mas, naquela época, os riscos do cigarro ainda não eram compreendidos — ou comunicados — como são atualmente.

Esse capítulo da história mostra algo importante:

a busca pela magreza nem sempre significou busca por saúde.

E essa diferença continua relevante até hoje.

Hormônios da tireoide também entraram nessa história

Hormônios tireoidianos aumentam o gasto energético e podem provocar perda de peso.

Por isso, em diferentes períodos, chegaram a ser utilizados com finalidade de emagrecimento inclusive em pessoas sem hipotireoidismo.

O problema é que aumentar artificialmente a ação dos hormônios tireoidianos não significa produzir um emagrecimento saudável.

Doses excessivas podem provocar taquicardia, arritmias, perda de massa muscular, alterações ósseas e outras complicações.

Hoje, hormônio tireoidiano não é tratamento para obesidade em pessoas com função tireoidiana normal.

Depois vieram as anfetaminas

A partir das décadas de 1930 e 1940, as anfetaminas ganharam espaço também pela capacidade de reduzir o apetite.

Durante décadas, medicamentos estimulantes foram utilizados para perda de peso.

E eles podiam, de fato, fazer a balança diminuir.

Mas esse efeito vinha acompanhado de problemas importantes.

Insônia, aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial, alterações psiquiátricas e potencial de abuso e dependência estão entre os riscos associados a essas substâncias.

Esse é outro aprendizado importante da história da farmacologia da obesidade:

fazer alguém perder peso não é suficiente para definir um bom tratamento.

Precisamos saber a que custo essa perda acontece.

E a solução virou simplesmente “coma menos e se mexa mais”

Enquanto diferentes medicamentos surgiam e desapareciam, outra ideia atravessou décadas praticamente intacta:

para emagrecer, basta comer menos e gastar mais.

Do ponto de vista energético, é evidente que o balanço energético participa da mudança de peso.

O problema acontece quando uma equação fisiológica é transformada em julgamento moral.

Se alguém recuperava o peso perdido, a conclusão frequentemente era:

“faltou disciplina.”

“não seguiu a dieta.”

“não teve força de vontade.”

Assim, um organismo extremamente complexo passou a ser tratado como se funcionasse apenas por decisão consciente.

O que a ciência começou a entender melhor

Hoje sabemos muito mais sobre os mecanismos envolvidos na regulação do peso corporal.

O cérebro recebe e integra sinais relacionados à disponibilidade energética, fome e saciedade.

Hormônios produzidos no trato gastrointestinal e no tecido adiposo participam dessa comunicação.

Genética influencia susceptibilidade à obesidade.

Sono, medicamentos, ambiente alimentar, atividade física, saúde mental, condições socioeconômicas e história de vida também podem interferir.

E o próprio emagrecimento provoca adaptações biológicas.

Depois da perda de peso, o organismo pode responder aumentando a fome e reduzindo o gasto energético, favorecendo a recuperação do peso perdido.

Isso ajuda a explicar algo observado há décadas:

perder peso e manter o peso perdido são desafios biologicamente diferentes de simplesmente decidir comer menos.

Então chegaram os medicamentos modernos

A farmacoterapia da obesidade também mudou.

Hoje temos medicamentos desenvolvidos e avaliados especificamente dentro de programas estruturados de pesquisa clínica.

Entre eles estão agonistas do receptor de GLP-1, como a semaglutida, e medicamentos que atuam em mais de uma via hormonal, como a tirzepatida.

E novas moléculas continuam sendo estudadas.

Os ensaios clínicos modernos não perguntam apenas:

“Quantos quilos essa pessoa perdeu?”

Eles também avaliam efeitos adversos, interrupção do tratamento, parâmetros metabólicos, eventos clínicos e segurança.

Isso não significa que os medicamentos atuais sejam isentos de riscos.

Significa que benefício e risco precisam ser avaliados cientificamente.

Mas talvez a maior evolução não esteja dentro da caneta

Uma das mudanças mais importantes foi reconhecer a obesidade como uma doença crônica, complexa e multifatorial.

Isso muda a lógica do tratamento.

A pergunta deixa de ser apenas:

“Como faço essa pessoa comer menos?”

e passa a incluir:

Como é sua alimentação?

Como ela dorme?

Quanto consegue se movimentar?

Quais medicamentos utiliza?

Como está sua saúde metabólica?

Qual é sua relação com a comida?

O que já tentou?

O que funcionou?

O que não conseguiu sustentar?

E, principalmente:

que tratamento é possível construir dentro da vida dessa pessoa?

A história também pede um pouco de humildade

É fácil olhar para trás e pensar:

“Como alguém achava razoável usar isso?”

Mas medicina é construída justamente dessa forma: hipóteses são testadas, evidências se acumulam, riscos aparecem, tratamentos são abandonados e outros ocupam seu lugar.

Provavelmente, daqui a algumas décadas, profissionais de saúde também olharão para algumas práticas atuais e perguntarão:

“Como a gente fazia isso?”

Isso não diminui a ciência.

É exatamente o contrário.

Ciência não significa nunca mudar de ideia.

Significa mudar quando evidências melhores mostram que precisamos mudar.

E talvez essa seja uma das partes mais interessantes da história do tratamento da obesidade.

Saímos de uma busca quase exclusiva por maneiras de fazer alguém comer menos para uma compreensão cada vez mais sofisticada de por que o organismo regula fome, saciedade e peso da maneira como regula.

Ainda temos muito a aprender.

Mas já aprendemos uma coisa fundamental:

tratar obesidade não é simplesmente fazer a balança baixar. É buscar perda de peso quando indicada preservando saúde, segurança e qualidade de vida.

Ciência sem terrorismo. Sem milagres.

Dra. Camila Ayer
CRM-SP 130787
Método 5P