Nos últimos anos, os medicamentos para tratamento da obesidade mudaram de maneira importante.

Depois dos agonistas do receptor de GLP-1 e da chegada de medicamentos que atuam simultaneamente em mais de uma via, uma nova molécula começou a chamar bastante atenção: a retatrutida.

Os resultados são realmente interessantes.

Mas há uma informação fundamental antes de qualquer discussão sobre eficácia:

retatrutida ainda é um medicamento experimental.

E isso muda completamente a conversa sobre produtos que já estão sendo oferecidos como se fossem o medicamento.

O que é a retatrutida?

A retatrutida é uma molécula desenvolvida pela Lilly que atua simultaneamente como agonista de três receptores:

GLP-1, GIP e glucagon.

Por atuar nas três vias, ela ficou conhecida como um agonista triplo.

Esse mecanismo a diferencia tanto dos agonistas isolados de GLP-1 quanto da tirzepatida, que atua nos receptores de GIP e GLP-1.

A retatrutida está sendo estudada principalmente para obesidade e suas complicações metabólicas, além de diabetes tipo 2.

Por que existe tanta expectativa?

Porque os resultados de perda de peso observados nos estudos têm sido expressivos.

Em julho de 2026, a Lilly divulgou resultados do estudo de fase 3 TRIUMPH-1, realizado em adultos com obesidade ou sobrepeso e pelo menos uma complicação relacionada ao peso, sem diabetes.

Entre os participantes que utilizaram 12 mg de retatrutida, a redução média de peso chegou a 28,3% após 80 semanas, na análise de eficácia divulgada pela empresa.

Também já foram divulgados resultados positivos de outros estudos do programa de fase 3, incluindo TRIUMPH-2 e TRIUMPH-3.

São resultados que justificam o interesse científico pela molécula.

Mas é preciso separar duas coisas:

resultado de estudo clínico e aprovação de medicamento.

Uma coisa não significa automaticamente a outra.

A retatrutida já foi aprovada?

Não.

Até agosto de 2026, a retatrutida não está aprovada por nenhuma agência regulatória para uso comercial.

Isso inclui o FDA, nos Estados Unidos, e a Anvisa, no Brasil.

A Lilly informou que pretende encaminhar o pedido de aprovação da retatrutida ao FDA no primeiro trimestre de 2027.

A partir daí, a documentação ainda precisará passar pela avaliação regulatória.

Portanto, não existe neste momento uma “retatrutida original aprovada” disponível comercialmente para tratamento da obesidade.

Então o que são os produtos vendidos como retatrutida?

Esse é provavelmente o ponto mais importante deste texto.

Se a molécula ainda não foi aprovada e comercializada oficialmente, produtos anunciados como “retatrutida” fora dos estudos clínicos não correspondem a um medicamento aprovado pelas autoridades sanitárias.

A própria Anvisa já alertou sobre a comercialização irregular desses produtos.

E o problema não é apenas burocrático.

Sem registro e controle sanitário adequados, não há garantia suficiente sobre questões fundamentais, como:

  • qual substância realmente está dentro do produto;
  • qual é sua concentração;
  • como foi fabricado;
  • em quais condições foi armazenado;
  • quais impurezas podem estar presentes;
  • e se aquilo que está no frasco corresponde ao que aparece no rótulo.

Portanto, dizer que alguém “já está usando retatrutida” exige uma distinção importante.

Existe uma molécula chamada retatrutida sendo estudada em ensaios clínicos. Isso não transforma produtos comercializados irregularmente com esse nome em medicamentos aprovados.

Mas os resultados não provam que ela funciona?

Os resultados disponíveis são bastante promissores e mostram uma magnitude de perda de peso que merece atenção.

Mas estudos clínicos não servem apenas para descobrir quanto um medicamento emagrece.

Eles também avaliam segurança, eventos adversos, tolerabilidade, doses, interrupções do tratamento e diferentes populações de pacientes.

Depois disso, as agências regulatórias analisam o conjunto das evidências para decidir se a relação entre benefícios e riscos justifica a aprovação e em quais condições o medicamento poderá ser utilizado.

Esse processo não é um detalhe burocrático.

Ele faz parte da segurança do tratamento.

Promissora não significa aprovada

A retatrutida provavelmente continuará aparecendo bastante nas notícias sobre tratamento da obesidade.

E faz sentido acompanhar essa evolução.

Estamos diante de uma molécula com resultados clínicos relevantes e potencial para ampliar as opções terapêuticas no futuro.

Mas existe uma diferença entre acompanhar uma inovação e antecipar seu uso.

Hoje, a mensagem é simples:

a retatrutida é promissora. Mas promissora não significa aprovada.

Até que o processo científico e regulatório seja concluído, produtos comercializados como retatrutida fora de ensaios clínicos não devem ser confundidos com um medicamento aprovado.

Na medicina da obesidade, novidade é importante.

Segurança também.

Ciência sem terrorismo. Sem milagres.

Dra. Camila Ayer
CRM-SP 130787
Método 5P