Medicamentos como semaglutida, liraglutida e tirzepatida podem ser ferramentas importantes no tratamento da obesidade. Mas existe uma ideia que precisamos abandonar:

mais efeito colateral não significa que o medicamento está funcionando melhor.

Náusea intensa, dificuldade para comer ou emagrecimento muito rápido não deveriam ser usados como medida de sucesso do tratamento.

Se você está usando uma dessas medicações, alguns sinais merecem ser discutidos com o médico que acompanha seu tratamento.

1. Náusea persistente ou intensa

Náusea é um efeito adverso conhecido desses medicamentos e pode aparecer principalmente no início do tratamento ou após o aumento da dose.

Uma coisa é apresentar um desconforto leve e transitório.

Outra é passar semanas com náusea importante, ter dificuldade para realizar as refeições, reduzir demais a ingestão de alimentos ou não conseguir se hidratar adequadamente.

Nessas situações, não é uma boa estratégia simplesmente suportar os sintomas porque “a caneta está funcionando”.

O tratamento precisa ser reavaliado.

Dependendo do caso, pode ser necessário rever a dose, a velocidade de progressão do medicamento, a alimentação, a hidratação e até investigar outras causas para os sintomas.

2. Você está emagrecendo muito rápido e ficando fraco

Ver o número da balança cair rapidamente pode parecer um excelente resultado.

Mas perder peso não é exatamente a mesma coisa que perder gordura.

Durante um processo de emagrecimento, alguma perda de massa magra pode acontecer. O objetivo é tentar minimizar essa perda por meio de uma estratégia que considere, entre outros fatores, ingestão adequada de proteínas, atividade física — especialmente exercício resistido quando possível — e uma velocidade de perda de peso compatível com a situação clínica.

Por isso, emagrecimento muito acelerado acompanhado de fraqueza, piora da capacidade física ou redução importante da ingestão alimentar merece atenção.

O tratamento da obesidade não deveria produzir apenas um corpo mais leve.

Queremos preservar saúde, massa muscular e funcionalidade ao longo do processo.

3. Você praticamente não consegue comer

Um dos efeitos esperados desses medicamentos é o aumento da saciedade.

Isso pode ajudar muito quem convive com fome excessiva ou dificuldade de controlar a ingestão alimentar.

Mas o objetivo não é eliminar completamente a capacidade de comer.

Se poucas garfadas provocam uma sensação de plenitude muito intensa, se você passa grande parte do dia sem conseguir se alimentar ou se está ficando difícil atingir suas necessidades de proteínas, vitaminas, minerais e energia, isso merece ser avaliado.

Ausência de fome não significa ausência de necessidade nutricional.

Seu organismo continua precisando ser nutrido durante o emagrecimento.

A melhor dose não é necessariamente a maior dose

Esse é um ponto especialmente importante.

O objetivo do tratamento não deveria ser chegar à maior dose possível nem produzir a maior supressão de apetite possível.

A resposta precisa ser individualizada.

O médico deve considerar eficácia, tolerabilidade, evolução clínica, efeitos adversos e objetivos do tratamento para decidir sobre a condução e a progressão da medicação.

Por isso, não aumente, reduza ou interrompa a dose por conta própria.

A caneta é uma parte do tratamento

No tratamento da obesidade, prescrever um medicamento é apenas uma das decisões.

Também precisamos olhar para alimentação, atividade física, sono, evolução da composição corporal, sintomas, condições metabólicas e outras características individuais.

É justamente por isso que, no Método 5P, o cuidado é organizado em:

Prato — alimentação e adequação nutricional.
Passos — movimento e atividade física.
Pausa — sono, descanso e recuperação.
Perfil Metabólico — avaliação clínica e metabólica individual.
Prescrição — medicamentos e outras intervenções quando indicados.

A medicação não precisa fazer você passar mal para funcionar.

O objetivo é tratar a obesidade com eficácia, tolerabilidade e segurança.

Se durante o tratamento você apresenta sintomas persistentes ou dificuldade importante para comer ou se hidratar, converse com o médico responsável pelo seu acompanhamento.

Mais efeito colateral não significa mais resultado.

Ciência sem terrorismo. Sem milagres.

Dra. Camila Ayer
CRM-SP 130787
Método 5P