Qual é o melhor exercício? Talvez essa não seja a melhor pergunta
Quando alguém decide cuidar da saúde ou iniciar um tratamento para obesidade, uma das primeiras dúvidas costuma ser:
“Qual exercício eu deveria fazer?”
Musculação? Corrida? Caminhada? Natação? Bicicleta? Pilates?
A resposta depende do objetivo.
Diferentes modalidades provocam diferentes adaptações no organismo. O treinamento de força, por exemplo, é especialmente importante para força e preservação ou ganho de massa muscular. Atividades aeróbicas contribuem para a aptidão cardiorrespiratória e saúde cardiovascular. E uma combinação de modalidades pode ser interessante para muitas pessoas.
Por isso, quando falamos de prescrição de treinamento, individualizar importa — e essa prescrição deve ser realizada por um profissional de Educação Física.
Mas existe uma questão anterior que muitas vezes é esquecida:
você consegue sustentar esse exercício na sua vida?
O melhor treino no papel pode ser um péssimo treino para você
Imagine alguém que recebe a recomendação de fazer determinado exercício cinco vezes por semana.
Só que essa pessoa trabalha o dia inteiro, cuida da casa, tem filhos, dorme pouco e detesta aquela modalidade.
O programa pode ser fisiologicamente excelente. Na prática, talvez dure quinze dias.
E um exercício que não é realizado não produz adaptação nenhuma.
Por isso, adesão não é um detalhe do tratamento. Ela faz parte do tratamento.
Três perguntas ajudam bastante
Ao pensar em atividade física, gosto de considerar três critérios.
1. Eu me sinto bem fazendo?
Não significa que todo exercício precisa ser divertido o tempo inteiro. Esforço faz parte.
Mas existe diferença entre uma atividade que exige esforço e uma atividade que você simplesmente odeia.
Encontrar alguma forma de movimento com a qual você tenha uma relação minimamente boa aumenta muito a chance de continuidade.
2. Isso cabe na minha rotina?
Um plano sustentável precisa funcionar numa terça-feira comum — não apenas naquela semana perfeita em que nada dá errado.
Talvez você consiga caminhar perto de casa. Talvez prefira nadar duas vezes por semana. Talvez uma academia perto do trabalho seja mais viável.
A logística importa.
3. Como eu fico depois?
Observe seu corpo.
Como fica sua disposição? Seu humor? Seu sono? Sua recuperação? Você consegue continuar o restante do dia normalmente?
Essas informações ajudam a entender se aquela estratégia está funcionando para você e também podem orientar ajustes no treinamento.
E no tratamento da obesidade?
Aqui existe outro ponto importante: atividade física não deve ser reduzida a “queimar calorias”.
O exercício participa do cuidado de diversas maneiras. Pode melhorar capacidade cardiorrespiratória, força, funcionalidade, saúde cardiometabólica e qualidade de vida. Durante a perda de peso, estratégias adequadas de exercício — especialmente treinamento de força — também são relevantes para a preservação de massa magra.
Por isso, transformar exercício simplesmente em uma ferramenta para “pagar” aquilo que você comeu é uma visão muito pobre do papel do movimento na saúde.
Então, qual exercício escolher?
Se existe uma condição clínica, limitação física ou objetivo específico de treinamento, a avaliação individual e a orientação profissional são importantes.
Mas, para quem está tentando sair do sedentarismo, existe uma pergunta muito útil:
“Qual movimento eu consigo começar e continuar fazendo?”
Depois, intensidade, volume, frequência e modalidade podem ser aprimorados.
Porque diferentes exercícios realmente geram diferentes adaptações.
Mas o exercício só consegue produzir benefício quando sai da prescrição e entra, de verdade, na sua vida.
Dra. Camila Ayer
Médica de Família e Comunidade
CRM/SP 130787
Ciência sem terrorismo. Sem milagres.