O que uma receita de asma pode ter a ver com o tratamento da obesidade?
À primeira vista, asma e obesidade podem parecer assuntos completamente diferentes.
Mas imagine a seguinte situação: uma pessoa está em uma consulta para tratamento da obesidade e, durante a conversa, comenta que está sem a receita da medicação para asma. Ao aprofundar um pouco mais, aparece outra informação importante: ela vem precisando usar corticoide oral repetidamente para controlar as crises.
De repente, aquilo que parecia apenas uma receita para renovar passa a fazer parte do raciocínio sobre o tratamento da obesidade.
É justamente aí que entra um conceito muito importante na Medicina de Família e Comunidade: integralidade do cuidado.
Obesidade não acontece isoladamente
Quando alguém procura tratamento para obesidade, é tentador concentrar toda a consulta no peso.
O que está comendo?
Quanto está se exercitando?
Qual medicamento para obesidade poderia ser utilizado?
Essas perguntas podem fazer parte da avaliação, mas são insuficientes.
Uma pessoa pode ter obesidade e, ao mesmo tempo, viver com asma, hipertensão, diabetes, dor crônica, alterações do sono, ansiedade, sintomas da menopausa ou diversas outras condições.
Além disso, os próprios tratamentos utilizados para essas doenças podem interferir no peso, na fome, na disposição e no metabolismo.
Por isso, uma avaliação adequada também precisa perguntar:
Existe alguma outra condição — ou algum medicamento utilizado para tratá-la — interferindo no controle do peso?
E onde entra o corticoide?
Os corticosteroides sistêmicos, como os utilizados por via oral, são medicamentos extremamente importantes e podem ser necessários em diversas situações clínicas.
O problema não é simplesmente “usar corticoide”.
A questão é a exposição frequente ou prolongada, que pode produzir diversos efeitos adversos.
Dependendo da dose e do tempo de uso, os corticosteroides sistêmicos podem aumentar o apetite, favorecer retenção de líquidos e provocar alterações no metabolismo da glicose, além de contribuir para mudanças na composição e distribuição da gordura corporal.
Por isso, quando uma pessoa apresenta uso repetido de corticoide oral, essa informação também interessa ao médico que está tratando sua obesidade.
Não porque o corticoide explique sozinho o ganho de peso, mas porque ele pode ser uma das peças desse quebra-cabeça.
O problema pode estar antes da balança
No exemplo da asma, existe ainda outra pergunta importante:
Por que essa pessoa está precisando de corticoide oral tantas vezes?
O uso recorrente pode indicar que o controle da doença precisa ser revisto.
É necessário avaliar o tratamento de manutenção, técnica e adesão aos medicamentos inalatórios, frequência e gravidade dos sintomas, fatores desencadeantes e outros elementos do quadro clínico.
Ou seja, simplesmente renovar uma receita sem olhar para o contexto pode significar perder uma oportunidade importante de cuidado.
E isso também mostra por que tratar obesidade não deveria significar olhar exclusivamente para a balança.
Isso é integralidade
Integralidade é uma palavra muito utilizada na Medicina de Família e Comunidade, mas na prática ela significa algo bastante concreto:
entender que os problemas de saúde de uma pessoa não vivem em gavetas separadas.
A asma está em uma gaveta.
A obesidade em outra.
O sono em outra.
A saúde emocional em outra.
O corpo não funciona assim.
Uma condição interfere na outra. Um medicamento prescrito para determinado problema pode repercutir em outro. Dormir mal pode interferir na alimentação. Uma dor persistente pode reduzir a atividade física. Um tratamento inadequado pode gerar a necessidade recorrente de outro medicamento.
O trabalho do médico não é apenas identificar cada uma dessas peças.
É entender como elas se conectam.
Nem todo ganho de peso é explicado por alimentação
Esse raciocínio também ajuda a desmontar uma ideia bastante comum: a de que, diante do ganho de peso, a primeira explicação deve ser que a pessoa simplesmente está comendo demais.
A alimentação é importante, obviamente.
Mas uma avaliação clínica de obesidade também precisa considerar doenças associadas, sono, saúde emocional, atividade física, contexto de vida e medicamentos que possam favorecer ganho de peso.
Em alguns casos, será possível modificar uma medicação.
Em outros, isso não será possível nem desejável, porque aquele tratamento é necessário. Nesse cenário, o papel do médico é reconhecer o impacto potencial e pensar o tratamento da obesidade levando essa variável em consideração.
Nunca se deve suspender um corticoide ou qualquer outro medicamento prescrito por conta própria com o objetivo de emagrecer.
Tratar obesidade é tratar uma pessoa, não um número
É por isso que eu gosto tanto da integralidade dentro do tratamento da obesidade.
Uma consulta pode começar falando sobre peso e terminar ajustando o tratamento de outra condição que estava interferindo no processo.
Isso não significa perder o foco.
Significa exatamente o contrário: entender tudo aquilo que pode estar influenciando o problema que estamos tentando tratar.
Porque eu não trato um peso isolado.
Eu trato uma pessoa que, entre muitas outras coisas, vive com obesidade.
Ciência sem terrorismo. Sem milagres.
Dra. Camila Ayer
Médica de Família e Comunidade
CRM/SP 130787
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