Aplicativos como MyFitnessPal, FatSecret, YAZIO e Lifesum tornaram a contagem de calorias muito mais acessível. Você registra o que come, o aplicativo estima as calorias e os nutrientes e, no final do dia, mostra se ficou acima ou abaixo de uma determinada meta.

Parece uma solução bastante objetiva para quem quer emagrecer.

Mas será que todo mundo deveria contar calorias?

Não.

A contagem pode ser uma ferramenta útil para algumas pessoas. Para outras, pode acrescentar ansiedade, culpa e rigidez à alimentação.

A questão não é simplesmente se o aplicativo funciona. É para quem, por quanto tempo e com qual objetivo ele está sendo utilizado.

Quando contar calorias pode ajudar?

Para uma pessoa que tem uma relação tranquila com a comida, utilizar um aplicativo por determinado período pode ter uma função educativa.

Às vezes existe uma diferença grande entre o que imaginamos estar consumindo e o que realmente compõe uma refeição.

Registrar a alimentação pode ajudar a perceber, por exemplo:

  • o tamanho habitual das porções;

  • alimentos que concentram mais calorias em pequenas quantidades;

  • quanto de proteína e fibras aparece ao longo do dia;

  • bebidas e pequenos lanches que muitas vezes passam despercebidos;

  • padrões da própria alimentação.

Nesse contexto, o aplicativo funciona mais como uma ferramenta de observação do que como um fiscal.

E essa diferença é fundamental.

O problema começa quando o número passa a comandar a alimentação

Imagine que o aplicativo determinou uma meta diária.

Você chega ao jantar e percebe que está perto desse limite. Está com fome, mas decide não comer porque “acabaram suas calorias”.

Ou come algo fora do planejado e imediatamente começa a pensar em como compensar depois.

A ferramenta que deveria fornecer informação começa a determinar se você “foi bem” ou “foi mal” naquele dia.

É aí que acende um alerta.

Em pessoas com maior ansiedade relacionada à alimentação, comportamento alimentar muito rígido, episódios de compulsão ou histórico de transtornos alimentares, a contagem pode ser inadequada e merece avaliação individual.

Nem toda pessoa se beneficia de transformar comida em números.

Aplicativos não sabem exatamente quantas calorias você comeu

Outro problema é a falsa sensação de precisão.

O aplicativo mostra 1.647 kcal e aquele número parece extremamente exato.

Na prática, não é.

Existem diversas fontes de variação: banco de dados utilizado pelo aplicativo, informações cadastradas pelos próprios usuários, tamanho real da porção, modo de preparo e diferenças naturais entre os alimentos.

Uma colher de azeite registrada pode não ser exatamente a quantidade colocada na panela. Uma porção estimada visualmente pode ser maior ou menor do que a porção cadastrada.

Portanto, a informação pode ser útil como estimativa, mas não deveria ser interpretada como uma medição perfeita do metabolismo ou da ingestão alimentar.

E a meta calculada pelo aplicativo?

Também precisa ser interpretada com cautela.

Aplicativos costumam utilizar fórmulas para estimar gasto energético e definir metas a partir de informações como peso, altura, idade, sexo e nível de atividade física.

Mas seres humanos não são equações perfeitas.

Composição corporal, rotina, atividade física, alterações metabólicas, medicamentos, doenças associadas, sono e diversos outros fatores podem modificar o contexto clínico.

Por isso, uma meta gerada automaticamente por um aplicativo não substitui uma avaliação individualizada.

Então preciso contar calorias para emagrecer?

Não.

Para ocorrer perda de gordura corporal ao longo do tempo, o balanço energético importa. Mas reconhecer isso é diferente de dizer que toda pessoa precisa contabilizar cada caloria que ingere.

Existem várias maneiras de modificar a ingestão energética sem passar o dia registrando alimentos.

Trabalhar saciedade, aumentar proteínas e fibras quando apropriado, melhorar a composição das refeições, rever bebidas calóricas, organizar o ambiente alimentar e reconhecer situações que levam ao comer automático são alguns exemplos.

Em determinados casos, contar calorias pode fazer parte da estratégia.

Em outros, não acrescenta nada.

E em alguns pode até atrapalhar.

A pergunta mais importante não é “qual é o melhor aplicativo?”

MyFitnessPal, FatSecret, YAZIO, Lifesum e outros aplicativos oferecem recursos diferentes, mas antes de escolher entre eles existe uma pergunta mais importante:

Contar calorias é uma estratégia adequada para você?

Uma ferramenta pode ser excelente e, ainda assim, ser a ferramenta errada para determinada pessoa.

No tratamento da obesidade, individualizar não significa apenas escolher qual dieta, exercício ou medicamento utilizar.

Também significa decidir quais ferramentas não precisamos utilizar.

Se o aplicativo aumenta sua consciência alimentar sem gerar sofrimento ou rigidez, ele pode ter alguma utilidade.

Se você começa a ter medo de ultrapassar números, sentir culpa depois das refeições ou organizar sua vida em torno das calorias disponíveis, provavelmente é hora de reavaliar a estratégia.

O objetivo do tratamento não deveria ser ensinar alguém a passar o resto da vida obedecendo a um aplicativo.

O objetivo é construir uma relação com alimentação, movimento e saúde que seja possível sustentar também quando o celular estiver longe da mesa.

Ciência sem terrorismo. Sem milagres.

Dra. Camila Ayer
Médica de Família e Comunidade
CRM/SP 130787
Campinas • São Paulo • On-line para todo o Brasil