“Especialista em emagrecimento” e cuidado em obesidade não são a mesma coisa
Nos últimos anos, surgiram cada vez mais profissionais se apresentando como “especialistas em emagrecimento”. E eu acho importante fazer uma distinção: emagrecer alguém e cuidar de uma pessoa que vive com obesidade não são exatamente a mesma coisa.
Eu sou médica de família. E trato obesidade.
Não preciso criar um novo rótulo para isso. A Medicina de Família e Comunidade parte de um princípio que considero essencial para o tratamento da obesidade: antes de tratar o peso, é preciso entender a pessoa que vive naquele corpo.
Obesidade não é apenas excesso de peso
Obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial.
Isso significa que não existe uma única causa — e, consequentemente, não deveria existir uma única solução.
Quando uma pessoa chega ao meu consultório, claro que o peso importa. A composição corporal importa. Os exames importam.
Mas eu também quero conhecer a trajetória daquele peso.
Quando começou o ganho? Houve períodos de perda e reganho? O que já foi tentado? Existem episódios de comer emocional ou compulsão? Como está o sono? E o estresse? Existe atividade física? Quais medicamentos essa pessoa utiliza? Há diabetes, hipertensão, dislipidemia, apneia do sono ou outras condições associadas?
E existe ainda uma pergunta que nenhum exame laboratorial responde:
como é a vida dessa pessoa?
Horários, trabalho, filhos, dinheiro, acesso a alimentos, relações familiares, saúde emocional, preferências, limitações e possibilidades reais.
Tudo isso interfere no tratamento.
Perder peso é um desfecho. Cuidar da obesidade é um processo.
Uma pessoa pode perder peso rapidamente e, ainda assim, não estar recebendo um bom cuidado em obesidade.
É possível produzir perda de peso com restrições alimentares difíceis de sustentar, intervenções inadequadas ou prescrições que não consideram o restante da saúde.
O número na balança pode até diminuir.
A pergunta é: o que estamos construindo enquanto ele diminui?
Estamos preservando massa muscular? Melhorando a saúde metabólica? Tratando as comorbidades? Construindo uma alimentação possível? Melhorando sono e capacidade funcional? A medicação está bem indicada e sendo acompanhada? Existe uma estratégia para manutenção do peso perdido?
Porque o tratamento não termina quando a balança chega a determinado número.
Obesidade, como outras doenças crônicas, exige acompanhamento longitudinal.
E as famosas “canetas”?
Elas mudaram — e continuam mudando — o tratamento da obesidade.
Medicamentos antiobesidade podem ser ferramentas extremamente eficazes quando existe indicação clínica. Negar farmacoterapia por preconceito também não é medicina baseada em evidências.
Mas existe uma diferença enorme entre prescrever uma medicação para emagrecer e conduzir o tratamento da obesidade.
A caneta não substitui diagnóstico.
Não substitui avaliação clínica.
Não identifica sozinha uma apneia do sono, não acompanha a perda de massa muscular, não organiza outras medicações, não entende a relação daquela pessoa com a comida e não decide qual será a estratégia de longo prazo.
Medicação é parte do tratamento. Não é o tratamento inteiro.
Onde entra a Medicina de Família?
Justamente aqui.
Minha formação me ensinou a não fragmentar uma pessoa em problemas isolados.
Eu não preciso olhar apenas para a obesidade e encaminhar cada outro aspecto da vida para uma direção diferente. Posso integrar as informações e entender como elas se relacionam.
É essa lógica que levo para o meu cuidado em obesidade.
Alimentação, movimento, sono e estresse, perfil metabólico, comorbidades e prescrição não são assuntos independentes. São partes da mesma pessoa.
E foi a partir dessa visão que organizei meu cuidado pelo Método 5P.
Não para transformar pessoas diferentes em um protocolo único, mas para garantir que nenhuma dimensão importante seja esquecida enquanto construímos um plano individual.
Então qual é a diferença?
Meu objetivo não é simplesmente ser a médica que faz alguém emagrecer.
Quero tratar a obesidade como aquilo que ela é: uma doença crônica que merece cuidado médico sério, individualizado e longitudinal.
Isso pode envolver alimentação. Exercício. Sono. Mudanças comportamentais. Tratamento de outras doenças. Medicação antiobesidade. E, em algumas situações, outras estratégias terapêuticas.
Não existe mérito em usar menos ferramentas. Existe responsabilidade em usar a ferramenta certa, para a pessoa certa, no momento certo.
Por isso, quando alguém me pergunta qual é a diferença entre “emagrecimento” e cuidado em obesidade, para mim a resposta é simples:
emagrecimento olha para o resultado.
Cuidado em obesidade olha para o resultado, para a doença — e para a pessoa que continuará vivendo depois que aquele resultado chegar.
Eu sou médica de família. E trato obesidade.
Ciência sem terrorismo. Sem milagres. Sem culpa.